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O Brasil exportou 2,94 milhões de toneladas de carne de frango apenas no primeiro semestre de 2026. A receita chegou a US$ 5,7 bilhões. Volume e faturamento são recordes para o período. Os números reforçam a posição brasileira em uma cadeia que ganhou ainda mais relevância global. Mas, para quem olha o setor sob a perspectiva de M&A, existe uma discussão menos óbvia acontecendo.
O valor de um frigorífico de aves não está apenas em quanto ele consegue produzir hoje. Está também naquilo que levou anos para ser construído ao redor dessa produção. Capacidade de abate continua sendo importante. Mas dois frigoríficos com volumes e resultados financeiros semelhantes podem representar oportunidades completamente diferentes para um comprador.
Uma operação pode ter uma rede consolidada de produtores integrados, localização próxima às principais regiões produtoras de milho e soja, eficiência logística e bons níveis de utilização da planta. Pode possuir habilitações para exportar para determinados mercados, certificações como halal, histórico consistente de biossegurança e relações comerciais consolidadas ao longo de anos.
Esses atributos nem sempre aparecem de forma evidente em uma análise financeira tradicional. Mas podem ser exatamente o que um comprador procura. Uma planta industrial pode ser construída ou ampliada. Máquinas podem ser compradas. Já o desenvolvimento de uma rede de produtores, a conquista de habilitações sanitárias, a construção de relacionamentos com clientes e o domínio de determinadas rotas comerciais exigem tempo.
É por isso que, em algumas transações, o comprador não está adquirindo apenas capacidade produtiva. Ele pode estar comprando acesso imediato a uma nova região, novos clientes, fornecedores ou mercados internacionais. Pode estar buscando complementar sua cadeia de suprimentos, melhorar sua logística ou acelerar uma estratégia que levaria anos para ser desenvolvida organicamente.
Alguns movimentos recentes no Brasil ajudam a tornar essa lógica concreta. Em fevereiro de 2026, a Seara concluiu a compra de duas granjas da Céu Azul no interior de São Paulo. As unidades já forneciam ovos férteis e aves para abate à própria Seara.
A operação não ampliou capacidade em um único frango: foi uma internalização do fornecimento, com o argumento, apresentado ao Cade, de ganhar controle sobre qualidade e custo na etapa do ovo fértil. Comprou-se o elo da cadeia, não a planta.
Habilitações seguem a mesma lógica. A Dália, no Rio Grande do Sul, obteve em setembro a habilitação chinesa para todos os cortes de seu frigorífico de Arroio do Meio, com foco inicial em pés de frango — um produto de baixa aceitação no mercado interno que passa a ter destino remunerado.
A Coopavel, no Paraná, foi classificada pelo Iraque como fornecedora preferencial após auditoria sem ressalvas, condição que prevê a manutenção do fornecimento mesmo em períodos de crise. Nenhuma das duas conquistas aparece como linha no balanço. As duas mudam o valor do ativo.
O caso da Lar com a Copagril, no oeste do Paraná, é o exemplo clássico de comprador com demanda represada encontrando uma operação já consolidada. A Lar assumiu o frigorífico de aves e a fábrica de rações da cooperativa vizinha por cerca de R$ 410 milhões, incluindo os contratos com os produtores integrados.
A planta já operava com aproximadamente 170 mil aves por dia; a Lar tinha associados querendo produzir mais frango e capacidade imediata de absorver essa produção. O valor estava no que a estrutura permitiria a outro grupo fazer.
O mesmo raciocínio vale para quem está antes do frigorífico na cadeia. Em setembro de 2025, a Pluma Agroavícola, maior produtora de ovos férteis e pintos de corte da América Latina, com sede no sudoeste do Paraná, adquiriu 70% da G3 Agroavícola, uma das maiores granjas de ovos férteis do Nordeste, em transação assessorada pela IGC.
A Pluma não precisava de mais matrizes — o grupo alojou 7,3 milhões em 2025 e produziu 1,2 bilhão de ovos férteis. O que comprou foi presença consolidada em uma região distante de sua base, uma carteira de clientes integradores locais e um histórico de biossegurança construído ao longo de mais de duas décadas.
Em 2026, o mesmo grupo anunciou US$ 50 milhões para um complexo de reprodução no Paraguai, atrelado à nova planta frigorífica da JBS no país: o elo genético acompanhando o abate para onde ele vai.
O movimento global aponta na mesma direção Fora do Brasil, a lógica é a mesma — e os cheques, maiores. Em setembro de 2026, a americana Hormel Foods anunciou a compra da Brakebush Brothers por US$ 1,055 bilhão. A Brakebush não é uma integradora: não cria aves nem abate. Opera cinco plantas de processamento de frango de valor agregado para food service, com cerca de US$ 1,2 bilhão em vendas.
A Hormel pagou perto de uma vez a receita por uma força de vendas direta, relacionamentos com clientes e domínio de categoria — não por capacidade de abate. A combinação entre BRF e Marfrig deu origem à MBRF, que fechou 2025 com receita líquida de R$ 164 bilhões — a sétima maior empresa do Brasil, nascida como a maior produtora de frango halal do mundo. Só a operação BRF faturou R$ 65 bilhões, exportando para 102 países.
Mais recentemente, a JBS apresentou proposta para adquirir os cerca de 18% da Pilgrim’s Pride que ainda não detém, em uma troca de ações avaliada em cerca de US$ 1,2 bilhão. O timing diz muito: a Pilgrim’s vinha de uma margem Ebitda de 12,3% em 2025 e caiu para 7,8% no segundo trimestre de 2026, com excesso de oferta nos Estados Unidos derrubando em 25% o preço dos cortes commodity.
Consolidar controle quando a margem comprime é o padrão dos grandes grupos. A expansão também cruza fronteiras. A ucraniana MHP, maior produtora de frango da Europa, com US$ 3,8 bilhões de receita em 2025 e exportação para mais de 80 países, está adquirindo 70% da Nitsiakos, maior produtora de frango da Grécia, com €540 milhões de receita e capacidade de 41 milhões de aves por ano.
É o terceiro movimento da MHP no continente em seis anos, depois da eslovena Perutnina Ptuj em 2019 e da espanhola Uvesa em 2025, comprando plataformas estabelecidas para garantir acesso ao mercado da União Europeia.
Na Ásia, a Cargill anunciou US$ 130 milhões em novas operações avícolas na Tailândia e nas Filipinas. São operações de uma escala muito diferente da realidade de grande parte das empresas brasileiras, mas sinalizam algo importante: capacidade avícola continua sendo um ativo estratégico dentro das teses globais de consolidação.
Por trás disso há uma tendência estrutural. O frango é a proteína animal que mais cresce no mundo: é a mais barata, não enfrenta restrições religiosas e tem a menor pegada de carbono entre as carnes.
O mercado halal e o Oriente Médio deixaram de ser nichos e passaram a representar uma demanda estrutural. E o valor migra do abate para o processado — exatamente o movimento que a Hormel acaba de precificar.
Existe ainda um segundo ponto que ganhou importância. Em um setor no qual uma ocorrência sanitária pode interromper temporariamente o acesso a mercados inteiros, biossegurança deixou de ser apenas uma questão operacional.
E aqui o Brasil tem uma credencial que poucos concorrentes podem apresentar. Desde que a atual onda de influenza aviária começou, em 2022, os Estados Unidos perderam mais de 200 milhões de aves comerciais, segundo o USDA, e a Europa chegou a abater 48 milhões em uma única temporada.
O Brasil, maior exportador do mundo, registrou um único foco em granja comercial em toda a sua história — em Montenegro (RS), em maio de 2025. O foco foi contido na própria granja, o vazio sanitário de 28 dias foi cumprido sem novas ocorrências e a OMSA reconheceu o país novamente livre da doença em junho. Tudo isso sem vacinação, com um sistema de integração que coloca milhares de produtores sob protocolo sanitário unificado.
O custo do episódio também foi real: China e União Europeia suspenderam compras por meses e as empresas tiveram de redirecionar volumes. Mas o mercado interno absorveu, a diversificação de destinos funcionou e as exportações fecharam o primeiro semestre de 2026 em recorde.
É esse histórico — um foco, contido, em um país que produz cerca de 15 milhões de toneladas por ano — que sustenta as mais de 200 habilitações de exportação que uma empresa como a BRF acumula e que faz um comprador estrangeiro olhar para uma planta brasileira como um ativo de menor risco sanitário do que uma equivalente nos Estados Unidos ou na Europa.
Rastreabilidade, controles sanitários, qualidade da integração com produtores e diversificação de mercados ajudam a determinar a resiliência da companhia. E resiliência influencia valor.
Para o empresário, talvez essa seja a principal mudança de perspectiva. Um frigorífico não deve ser analisado apenas pelo que produz hoje, mas pelo que sua estrutura permitiria a outro grupo fazer amanhã. Entrar em uma nova região. Ganhar capacidade. Acessar novos clientes. Ampliar exportações. Incorporar fornecedores. Ou acelerar anos de crescimento.
O Brasil já construiu uma posição relevante na indústria global de aves. Para muitas empresas do setor, a próxima pergunta é entender quanto do valor construído ao longo dos anos realmente aparece no balanço — e quanto dele só se torna evidente quando o comprador certo olha para o ativo.