
Por Flávia Brandão da Silveira, sócia de Químicos na igc Partners
Voltamos da In-Cosmetics Global, em Paris, com uma leitura clara: a indústria de personal care está entrando em um ciclo em que a inovação será medida cada vez mais por prova. A feira, que reuniu mais de 1.000 expositores e participantes de mais de 120 países, mostrou que o centro da disputa competitiva não está apenas na marca, no canal ou na embalagem, mas no que sustenta a formulação: ingredientes, ativos, tecnologia, ciência aplicada e capacidade de transformar performance em valor percebido pelo consumidor.
Essa mudança desloca valor para etapas da cadeia que, por muito tempo, ficaram nos bastidores. Ingredientes funcionais, sistemas de delivery, ativos biotech, formulação avançada e distribuição técnica deixaram de ser apenas suporte para as marcas. Passaram a ocupar uma posição estratégica na diferenciação dos produtos, na defesa de margens e, cada vez mais, nas teses de aquisição de grupos globais.
A In-Cosmetics não foi apenas uma vitrine de tendências. Foi um mapa do próximo ciclo de criação de valor em personal care. E esse ciclo tende a premiar empresas capazes de combinar ciência, eficácia comprovada, velocidade de formulação, rastreabilidade e proximidade técnica com o cliente.
A inovação saiu da narrativa e foi para a prova.
Entre os principais temas do evento, ficou evidente que a agenda de inovação está se tornando mais técnica, regulada e dependente de evidências. Biotecnologia, longevidade da pele, microbioma cutâneo, neurocosmética, sensorialidade e sustentabilidade ativa apareceram não apenas como tendências de marketing, mas como plataformas de diferenciação.
Em biotech, temas como fermentação de precisão, cultivo celular, exossomos, peptídeos sintéticos e fatores de crescimento ganharam espaço como rotas relevantes para o skincare premium. A diferença, agora, está no grau de comprovação. Em um mercado com consumidores mais informados e maior escrutínio regulatório, a capacidade de sustentar claims com testes, dossiês técnicos e evidências laboratoriais passa a separar ingredientes de maior valor agregado de soluções mais comoditizadas.
A longevidade da pele também ganhou protagonismo. O mercado segue migrando de uma narrativa de “anti-aging” para conceitos de skin longevity e well-aging, com uma abordagem menos corretiva e mais preventiva, funcional e científica. Essa mudança favorece ingredientes e tecnologias que não prometem apenas efeito imediato, mas uma contribuição mensurável para a saúde, o equilíbrio e a performance da pele ao longo do tempo.
O microbioma cutâneo, por sua vez, deixou de ser uma tendência isolada e passou a ser tratado como uma plataforma independente de inovação. Ativos pré, pró e pós-bióticos entram no radar de players globais como caminhos para diferenciação, especialmente em categorias que buscam reforçar barreira cutânea, equilíbrio, proteção e resposta individualizada.
Na mesma direção, sensorialidade e skinification reforçam que performance não é apenas eficácia técnica. Textura, absorção, aplicação, fragrância, toque e experiência de uso influenciam diretamente a percepção de valor. Ao mesmo tempo, as fronteiras entre skincare, haircare e make-up continuam se dissolvendo, abrindo espaço para ativos multifuncionais e formulações híbridas.
Já a sustentabilidade deixou de ser um atributo acessório. Upcycling, biodiversidade, cadeias certificadas, rastreabilidade e naturalidade ativa passaram a ser pré-requisitos comerciais em um setor mais pressionado por consumidores, marcas e reguladores. O ponto central é que “natural” sozinho não basta. O que gera valor é naturalidade com governança, escala, documentação e capacidade de atender padrões globais.
Do ponto de vista do mercado de M&A:
Essa leitura é relevante porque muda os critérios pelos quais empresas do setor passam a ser avaliadas. Se a inovação depende cada vez mais de ciência, formulação, validação e relacionamento técnico com marcas, o valor deixa de estar apenas no volume vendido e passa a estar na qualidade estratégica do ativo.
Mesmo em um ambiente macro mais seletivo, com juros elevados, ciclos decisórios mais longos e maior fiscalização regulatória, a agenda de aquisições segue relevante para grupos que buscam presença local, preenchimento de lacunas de portfólio, acesso a capacidades técnicas e entrada em mercados regionais com potencial de crescimento.
O que muda é a seletividade. O mercado está migrando de uma lógica de volume para uma lógica de qualidade estratégica, marcada por menos transações oportunísticas e maior busca por empresas com vantagens competitivas defensáveis, como tecnologia proprietária, portfólio técnico, integração com clientes, capacidade de formulação, sourcing diferenciado, governança e recorrência.
Em outras palavras, compradores estratégicos e financeiros não estão olhando apenas para crescimento. Estão olhando para a capacidade da empresa de sustentar esse crescimento com diferenciação real.
O que aumenta o valuation nesse novo ciclo:
Nesse novo contexto, alguns fatores passam a ter peso direto na percepção de valor das empresas de ingredientes e personal care.
Ciência aplicada e eficácia comprovada. Empresas com testes clínicos e laboratoriais, dossiês técnicos bem estruturados e capacidade de sustentar claims com evidências tendem a se diferenciar. No segmento premium, ativos science-backed já são praticamente um pré-requisito. Quanto maior a profundidade da validação, maior a capacidade de proteger margem, justificar preço e reduzir a percepção de risco para compradores.
Biodiversidade com rastreabilidade. O acesso a matérias-primas naturais pode ser uma vantagem relevante, especialmente na América Latina, mas só se transforma em ativo estratégico quando vem acompanhado de origem rastreável, certificações reconhecidas, cadeias auditáveis e consistência de fornecimento. Biodiversidade sem governança é narrativa. Biodiversidade com documentação, escala e compliance pode se tornar barreira de entrada.
P&D proprietário, biotech e sistemas de delivery. Capacidades em biotecnologia, fermentação de precisão, encapsulação, vetorização de ativos e formulação avançada diferenciam empresas inovadoras de formuladores genéricos. Para compradores globais, esse tipo de conhecimento aplicado pode acelerar a entrada em novas categorias, melhorar a performance do portfólio e justificar prêmio sobre múltiplos do setor.
Recorrência e integração ao desenvolvimento das marcas. Empresas que participam do processo de co-desenvolvimento com clientes tendem a construir relações mais profundas, receitas mais previsíveis e custos de troca mais elevados. Quanto mais a empresa está inserida na formulação, no suporte técnico e na adaptação do produto ao mercado local, maior sua relevância estratégica.
Preparação para M&A. Governança, compliance regulatório, documentação técnica, clareza de indicadores, organização financeira e maturidade de gestão impactam diretamente a competitividade de um processo. Em um mercado mais seletivo, estar preparado para uma transação pode ser tão importante quanto ter bons números. Empresas bem estruturadas conseguem reduzir incertezas, acelerar a etapa de due diligence e atrair um universo mais qualificado de compradores.
A América Latina entrou no centro da tese:
Na igc, temos observado esse movimento de forma consistente. Em mais de 600 interações globais com players de químicos e ingredientes nos últimos 12 meses, a América Latina apareceu no centro das discussões estratégicas. Mais de 80% dos compradores europeus e norte-americanos mapeados demonstraram interesse ativo na região, e o interesse declarado por aquisições na América Latina atingiu 83%, com Brasil, México e Colômbia entre os mercados prioritários.
Esse interesse não acontece por acaso. A região combina mercados consumidores relevantes, acesso a matérias-primas naturais, biodiversidade, capacidade industrial, proximidade com marcas locais e oportunidades de consolidação. Em um momento em que grupos globais buscam crescimento mais qualificado, presença regional e maior controle sobre cadeias de suprimento, a América Latina ganha peso estratégico.
Além desses fundamentos estruturais, há fatores conjunturais que ajudam a explicar por que o interesse por M&A na região se intensificou agora. O primeiro é a reconfiguração das cadeias globais de suprimento: tarifas dos Estados Unidos têm acelerado discussões de nearshoring e favorecido mercados como Brasil e México. O segundo é a disponibilidade de capital: fundos de private equity seguem com dry powder elevado e pressão para alocar recursos em ativos com crescimento, diferenciação e potencial de consolidação. O terceiro é o câmbio, que torna empresas latino-americanas relativamente mais atrativas para investidores internacionais, especialmente quando comparadas a alternativas de crescimento orgânico em mercados mais maduros.
Na prática, essa combinação cria uma janela relevante para empresas da região. Para compradores globais, aquisições na América Latina podem representar não apenas entrada em mercados de crescimento, mas também acesso a capacidade produtiva local, conhecimento técnico regional, relacionamento com clientes e plataformas que podem ser escaladas ao longo do tempo.
O Brasil tem um papel particular nessa tese. O país reúne biodiversidade, presença relevante de marcas locais e regionais, indústria sofisticada e capacidade de inovação aplicada. No entanto, biodiversidade sozinha não basta. Para virar valor estratégico, precisa vir acompanhada de rastreabilidade, certificações, governança, escala, consistência e capacidade de atender padrões globais.
Essa combinação ajuda a explicar por que ativos brasileiros e latino-americanos com profundidade técnica, portfólio especializado e relacionamento recorrente com clientes têm se tornado mais relevantes para compradores internacionais. O racional não é apenas entrar em um novo mercado, mas acessar conhecimento local, capacidade técnica e uma plataforma com potencial de crescimento regional.
A mensagem da In-Cosmetics Global para o setor:
A In-Cosmetics Global reforçou que o futuro do personal care será cada vez mais científico, técnico e estratégico. E, nesse cenário, o M&A tende a acompanhar a mesma direção: menos foco em ativos genéricos e maior demanda por empresas com conhecimento aplicado, diferenciação real e capacidade de se tornar plataforma.
O próximo ciclo deve premiar quem conseguir transformar ciência em produto, produto em recorrência e recorrência em plataforma de crescimento.