A nova fronteira da consolidação no agro passa pelas cooperativas

Tempo de leitura
6 minutos
Data
Jun 24, 2026
Compartilhar

Por Karim Pechliye, sócio de Agro na igc Partners

Há um movimento importante em curso no agronegócio brasileiro: as grandes cooperativas estão deixando de ser apenas agentes de relacionamento, originação e suporte ao produtor para se tornarem plataformas cada vez mais relevantes de consolidação setorial.

Essa mudança não acontece por acaso. Em um mercado que exige escala, eficiência, capilaridade e oferta integrada, as cooperativas reúnem atributos difíceis de replicar. Elas têm presença regional, acesso direto ao produtor, conhecimento profundo das cadeias locais e uma relação de confiança construída ao longo de muitos anos.

Na prática, isso cria uma base muito favorável para crescimento orgânico. Mas, em muitos casos, cria também uma avenida ainda mais clara para crescimento via aquisições.

Por que aquisições fazem sentido para cooperativas

O agro brasileiro é amplo, sofisticado e, ao mesmo tempo, ainda bastante fragmentado em diversas verticais. Segmentos como nutrição animal, frigoríficos, distribuição especializada de insumos, máquinas agrícolas, irrigação e armazenagem são exemplos de áreas em que escala, capilaridade e complementaridade de portfólio podem fazer diferença competitiva.

Nesse contexto, cooperativas tendem a apresentar uma resiliência relevante por atuarem em diferentes elos da cadeia e estarem expostas a ciclos distintos. Uma cooperativa com negócios em insumos, grãos e proteínas, por exemplo, pode compensar pressões em uma frente com ganhos em outra: a queda no preço dos grãos pode pressionar a originação, mas também reduzir o custo de matérias-primas para ração, beneficiando operações de frango, suínos ou outras proteínas. Essa diversificação torna o modelo mais robusto e ajuda a explicar por que decisões estratégicas de portfólio podem ser tão relevantes.

Para uma cooperativa bem capitalizada, adquirir uma empresa pode significar acelerar anos de construção. Pode representar entrada em uma nova região, incorporação de uma linha de produto, acesso a uma base relevante de clientes, ganho de capacidade técnica ou ampliação do relacionamento com o produtor.

Esse ponto é central. Em M&A, uma aquisição raramente é apenas sobre comprar receita. Ela é, sobretudo, sobre adquirir uma posição estratégica: uma marca, uma rede, uma equipe, uma licença comercial, um canal de distribuição, uma tecnologia ou uma competência que levaria muito tempo para ser construída internamente.

O caso Pivot e Cocari

A aquisição da Pivot pela Cocari, em que a igc atuou como assessora exclusiva da Pivot, ilustra bem esse movimento.

Com a operação, a Cocari reforçou sua atuação em máquinas agrícolas e adicionou uma vertical relevante de irrigação ao seu portfólio. Isso amplia a capacidade da cooperativa de atender o produtor de forma mais completa, combinando maquinário, tecnologia, suporte técnico e soluções ligadas à produtividade no campo.

O racional é claro: quanto mais completa a oferta, maior tende a ser a relevância da cooperativa na jornada do produtor. E, no agro, relevância não se constrói apenas com preço. Ela se constrói com presença, confiança, assistência, disponibilidade e visão de longo prazo.

Esse é justamente um dos fatores que tornam cooperativas compradoras tão interessantes em determinados processos. Elas não analisam uma aquisição apenas pela ótica financeira de curto prazo. Muitas vezes, enxergam o ativo como parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento regional, expansão de portfólio e geração de valor para o cooperado.

O que aumenta valor em uma transação

Do ponto de vista de M&A, empresas que operam em mercados ligados ao agro tendem a ganhar atratividade quando combinam escala, recorrência, relacionamento com produtores, equipe técnica qualificada, governança, baixa dependência de poucos clientes e capacidade de ampliar sua oferta ao produtor.

Também há valor quando a companhia ocupa uma posição difícil de substituir dentro de uma cadeia local. No agro, a proximidade com o cliente final tem peso. Uma empresa que conhece o produtor, entende sua tomada de decisão, opera com assistência técnica de qualidade e consegue entregar soluções em momentos críticos do ciclo produtivo carrega um ativo estratégico que vai além dos números.

A leitura que fazemos na igc é que as cooperativas devem seguir ganhando protagonismo nesse ambiente. Elas têm vantagens naturais para consolidar mercados porque já partem de uma base de confiança e capilaridade. Quando somam a isso disciplina de capital, governança e clareza estratégica, tornam-se compradoras altamente competitivas.

Consolidação com visão de longo prazo

O avanço das cooperativas em M&A não deve ser visto como um movimento pontual. Ele reflete uma transformação maior do agro brasileiro: a busca por modelos mais integrados, eficientes e resilientes.

Para os empresários do setor, esse cenário abre uma discussão relevante. Em alguns casos, vender para uma cooperativa pode significar encontrar um comprador com forte alinhamento cultural, visão de continuidade e capacidade de preservar a relação construída com produtores e equipes locais. Em outros, pode ser o caminho para acelerar uma vertical que precisa de capital, escala e estrutura para crescer.

O ponto essencial é que o M&A no agro está ficando mais estratégico. Não se trata apenas de consolidar por consolidar. Trata-se de construir plataformas capazes de atender melhor o produtor, ampliar produtividade, incorporar tecnologia e fortalecer cadeias regionais.

As cooperativas entenderam isso. E, por isso, tendem a ocupar um lugar cada vez mais central no próximo ciclo de consolidação do agronegócio brasileiro.