O que está movimentando o M&A em saúde

Tempo de leitura
9 minutos
Data
Jul 30, 2026
Autor
Murilo Oliveira — Sócio, igc Partners
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O M&A em saúde é movido por consolidação e busca de escala, eficiência e capacidade técnica, e acontece em dois eixos: a cadeia de dispositivos médicos e equipamentos e a cadeia de serviços assistenciais. Em 2025, o mercado brasileiro de dispositivos médicos cresceu cerca de 7%, enquanto as transações com hospitais e laboratórios avançaram cerca de 37%.

O que está movimentando o M&A em saúde?

O M&A em saúde é movido por consolidação e busca de escala, eficiência e capacidade técnica — e acontece em dois eixos que se comunicam. O primeiro é a cadeia de dispositivos médicos e equipamentos: fabricantes nacionais, importadores, distribuidores, representantes, assistência técnica e linhas de diagnóstico. O segundo é a cadeia de serviços assistenciais: clínicas, laboratórios, hospitais e healthtechs.

Os dois eixos partem da mesma lógica econômica — diluir custo fixo, ampliar cobertura, integrar a cadeia em torno da jornada do paciente — mas o que o comprador examina em cada um é bem diferente. Numa rede de clínicas, a pergunta central é se a receita pertence à marca ou aos médicos. Numa indústria ou distribuidora de dispositivos médicos, a pergunta central é o que acontece com registros, contratos de representação e estoque no dia seguinte à venda.

É no eixo de dispositivos médicos que se concentra parte relevante da atividade de middle-market no setor, e é ali que a igc concentra sua leitura setorial.

Por que dispositivos médicos concentram parte relevante do movimento?

Porque o segmento reúne, ao mesmo tempo, fragmentação alta e barreira de entrada real — a combinação clássica que sustenta ciclos longos de consolidação.

A base industrial brasileira é composta por um número grande de fabricantes de pequeno e médio porte, ao lado de importadores e de uma malha ampla de distribuidores regionais e multinacionais com produção local. Nesse desenho, escala se traduz em poder de compra, logística, cobertura comercial e capacidade de manter assistência técnica na ponta. Consolidar canal, portfólio e território é a tese que se repete.

A regulação funciona como filtro. Registro ativo na Anvisa, autorização de funcionamento, classificação de risco, boas práticas de fabricação e histórico de tecnovigilância levam tempo e disciplina para construir. Isso encarece a entrada de quem quer crescer organicamente e valoriza quem já tem a casa em ordem: para o comprador estratégico, comprar uma empresa regularizada é comprar tempo.

Há ainda o componente de acesso a mercado. Fabricantes globais usam aquisições no Brasil como porta de entrada para a América Latina, aproveitando base industrial, registros já concedidos e canal de distribuição instalado — três coisas que não se replicam rapidamente.

Os nichos mais ativos costumam ser aqueles em que o equipamento ou o insumo tem uso recorrente e mercado pulverizado: ventilação e terapia intensiva, ortopedia e implantes, odontologia, reabilitação, diagnóstico e linhas de consumo hospitalar.

No plano global, o movimento aparece nos números do capital privado. Segundo o relatório anual da Bain & Company sobre private equity em saúde, 2025 foi ano recorde em valor de transações no setor, com o segmento de tecnologia médica ganhando peso relativo desde 2020.

O que os dados de 2025 mostram?

O movimento é visível nos dois eixos.

Em dispositivos médicos, o mercado brasileiro cresceu cerca de 7% em 2025 na medida de consumo aparente — produção nacional somada às importações, descontadas as exportações —, segundo boletim econômico da ABIIS. As importações somaram US$ 10,2 bilhões, alta de 10,9% sobre 2024, e o déficit da balança comercial do segmento ficou em US$ 9,2 bilhões. Na outra ponta, as exportações da indústria brasileira de dispositivos médicos cresceram 6,8% no ano, segundo levantamento da ABIMO. O retrato é de um setor que cresce acima da média industrial e depende fortemente de importação — o que dá peso econômico ao canal de distribuição e explica por que distribuidores e representantes aparecem tanto nas transações.

Nos serviços, as operações envolvendo hospitais e laboratórios somaram 22 transações entre janeiro e setembro de 2025, alta de cerca de 37% sobre o mesmo período de 2024, segundo levantamento trimestral da KPMG repercutido pela imprensa do setor, impulsionadas pela busca de escala, eficiência e digitalização. Análises do setor de saúde suplementar apontam na mesma direção, com o segmento em consolidação e valorização crescente de plataformas com boa governança.

Como sempre, trata-se de dado de volume — o número de operações —, que revela apetite recorrente pelo setor, não preço.

O que um comprador examina numa empresa de dispositivos médicos?

A due diligence do segmento tem uma pauta própria, diferente da de um ativo assistencial. Sete pontos aparecem em praticamente toda transação:

Portfólio regulatório. Registros ativos na Anvisa, autorização de funcionamento, classes de risco e histórico de tecnovigilância. Registro em ordem é ativo transferível; registro pendente ou vencido é desconto na mesa.

Qualidade e rastreabilidade. Sistema de gestão da qualidade, boas práticas de fabricação, rastreabilidade de lote e histórico de recolhimentos. Documentação existente vale mais que processo informal bem executado.

Contratos de representação e distribuição. Exclusividade, prazo, território e, sobretudo, cláusula de mudança de controle. Um contrato que pode ser rescindido justamente por causa da venda muda a conversa de preço.

Concentração de clientes e fontes pagadoras. Dependência de poucos hospitais, redes, operadoras, distribuidores ou de compras públicas, e a qualidade desses contratos.

Capital de giro, estoque e câmbio. Ciclo de importação, giro de estoque, exposição cambial e prazos de recebimento. É aqui que muita margem aparente se desfaz.

Receita recorrente de consumíveis e serviços. Base instalada, manutenção e insumos atrelados ao equipamento. Recorrência real é o que sustenta múltiplo.

Time técnico e capacidade regulatória. Engenharia, regulatório e desenvolvimento — capacidade que o comprador não constrói rápido e por isso paga para adquirir.

Por que qualidade e regulação entraram na conta do valor?

Ao mesmo tempo em que buscam escala, os compradores passaram a avaliar com rigor a conformidade regulatória, a qualidade e os indicadores de desfecho. Riscos nesses pontos pesam diretamente no valor e podem, inclusive, inviabilizar uma transação.

Vale para os dois eixos, com formas diferentes. Num serviço assistencial, o exame recai sobre licenças, habilitações, protocolos e indicadores clínicos. Em dispositivos médicos, recai sobre registros, rastreabilidade, conformidade de fabricação e histórico junto ao órgão regulador. Em ambos, um ativo com boa performance financeira e fragilidade regulatória tende a ser penalizado, enquanto quem mantém a casa em ordem chega à mesa em vantagem.

Na prática: como um comprador avalia um ativo de saúde?

Algumas situações se repetem nas transações do setor.

Em uma indústria ou distribuidora de dispositivos médicos, o comprador começa pelo portfólio regulatório e pelos contratos de representação: quer saber quais registros estão no nome da empresa, quais linhas dependem de terceiros e o que a mudança de controle aciona em cada contrato. Depois vai a estoque, câmbio e concentração de clientes.

Em uma rede de clínicas, examina a dependência de médicos específicos: se a receita segue os profissionais e não a marca, o risco de perda pós-venda sobe. Em serviços que dependem de operadoras, avalia a concentração de fontes pagadoras e a qualidade dos contratos.

Em uma healthtech, decompõe a recorrência e a integração real com o fluxo dos clientes, além de métricas de retenção e uso.

A empresa que antecipa essas respostas conduz a conversa em vez de reagir a ela.

Quem compra ativos de saúde e de dispositivos médicos?

O universo combina três perfis. Estratégicos globais, que compram no Brasil registros, base industrial e canal para acessar a região. Consolidadores nacionais, que buscam cobertura, densidade de distribuição, portfólio complementar e integração da cadeia. E compradores financeiros, com teses de consolidação em nichos fragmentados e crescimento por aquisições sucessivas.

Colocar perfis diferentes para competir pelo mesmo ativo, com uma leitura setorial precisa sobre quem está ativo e o que cada um procura, tende a melhorar o desfecho para o vendedor, tanto em preço quanto em condições.

A leitura da igc sobre saúde e dispositivos médicos

A igc atua em saúde com mandato exclusivo do vendedor, com leitura setorial que cobre a cadeia de dispositivos médicos e equipamentos — indústria, importação, distribuição, representação e assistência técnica — além de serviços assistenciais, diagnóstico e healthtechs. O conhecimento das dinâmicas do setor, incluindo suas exigências regulatórias, orienta o posicionamento de cada empresa.

Em dispositivos médicos, esse posicionamento passa por traduzir o que o ativo representa para cada perfil de comprador: para o estratégico global, acesso a registros, base industrial e canal; para o consolidador nacional, cobertura e portfólio; para o financeiro, uma plataforma em mercado fragmentado.

A combinação de especialização setorial com acesso a mais de 6.000 compradores no Brasil e no exterior é o que permite construir competição real por ativos de saúde, com os sócios conduzindo cada processo de dono pra dono.

Perguntas frequentes

O que move o M&A em dispositivos médicos no Brasil?

Fragmentação da indústria e da distribuição, exigência regulatória que funciona como barreira de entrada e interesse de fabricantes globais em usar o Brasil como porta de entrada regional. Escala em compras, logística, cobertura comercial e assistência técnica é a tese que se repete.

Uma indústria ou distribuidora de dispositivos médicos de médio porte desperta interesse de compradores?

Sim, sobretudo quando agrega registros, território, portfólio complementar ou capacidade técnica a uma plataforma maior. Regularização em ordem e contratos de representação estáveis aumentam o interesse e o valor percebido.

O M&A em saúde cresceu em 2025?

Sim. As operações com hospitais e laboratórios somaram 22 transações entre janeiro e setembro de 2025, alta de cerca de 37% sobre 2024, segundo levantamento de mercado. No eixo de dispositivos médicos, o mercado brasileiro cresceu cerca de 7% no ano, segundo boletim da ABIIS.

A regulação dificulta vender uma empresa de saúde ou de dispositivos médicos?

Adiciona camadas de análise, mas premia quem está em conformidade. Registros ativos, rastreabilidade e documentação de qualidade reduzem o risco percebido pelo comprador e tendem a proteger valor na negociação.

O que um comprador olha em uma healthtech?

Além de escala e cobertura, contam recorrência de receita, integração real com o ecossistema de saúde e capacidade técnica do time. Métricas de retenção e de uso costumam ser examinadas de perto.

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